Funcionamento do Memorial
O Memorial da Escravatura será localizado num conjunto edificado constituído pela antiga Casa Gouveia, uma estrutura de expressão colonial, representativa da frente ribeirinha da cidade, construída provavelmente no século XVII, em pleno auge do tráfico de escravos em Cacheu. A intervenção irá ainda estender-se às áreas anexas desta Casa Gouveia, caracterizadas por estruturas pavilhionares.
O perímetro da área de intervenção compreende uma área de cerca de 1.050,00 m², sendo que a área actualmente edificada é de aproximadamente 850,00 m². A reabilitação deste conjunto edificado, que se encontra parcialmente em ruínas, permitirá lançar bases para o desenvolvimento urbano da cidade na margem do Rio Cacheu, sendo por isso um projecto estratégico para a cidade e para o seu espaço público.
- Museu da Escravatura e Tráfico Negreiro
- Arquivo e Centro de Documentação
- Centro de Estudos e Pesquisas
- Centro de Formação
- Auditório
- Loja
Estão ainda previstas zonas de administração e de arrumos gerais.
Neste complexo, importa sublinhar, por um lado, que o Memorial pretende recolher, conservar e disponibilizar objectos e artefactos que possam ser identificados em campanhas arqueológicas devidamente programadas, panos di pinti, com motivos e desenhos quase desaparecidos e que apresentam estreita ligação com o tráfico de escravos e, bem assim, a recolha e tratamento de testemunhos de tradição oral da memória da escravatura.
O Memorial, por sua vez, está concebido na sua integração no espaço urbano, criando-se circuitos de visita (com a respectiva sinalética) que permitam melhor compreender a sua função agregadora e de acrescida visibilidade.
O Museu da Escravatura e Tráfico Negreiro pretende ser uma estrutura permanente, de funcionamento aberto à comunidade e com actividades viradas para as escolas, associações culturais, jovens, idosos, investigadores nacionais e estrangeiros e da diáspora. Para o efeito, o Museu basear-se-á no apoio e participação dos diversos actores locais, que se reverão nas suas atividades, na facilidade do seu acesso e no interesse cultural e económico que ele lhes irá propiciar. A exposição Permanente e a possibilidade de acolher exposições temporárias constituem peças centrais do Memorial e da sua articulação com as comunidades locais e outros visitantes. A concepção da Exposição Permanente constitui anexo ao presente documento.
O Arquivo e Centro de Documentação do Memorial pretende receber e tratar documentação de diferentes origens, visando a constituição de um arquivo digital, susceptível de suportar investigações e trabalhos relacionados com a escravatura em Cacheu e a sua inserção no tráfico negreiro internacional. Por outro lado, esta unidade deve assegurar a constituição de uma biblioteca básica sobre a região, a sua história e, em especial, a temática da escravatura, acolhendo os trabalhos desenvolvidos no âmbito da Rota dos Escravos da UNESCO e demais participações internacionais. Oferece ainda especial interesse a constituição de um banco de dados com origem na recolha de testemunhos de tradição oral sobre esta temática. Será ainda de relevar a incorporação neste Centro de Documentação de um núcleo documental sobre os recursos naturais e ambientais da zona.
O Centro de Estudos e Pesquisas está concebido numa dupla perspectiva de apoio ao desenvolvimento de trabalhos académicos sobre a temática da escravatura e, em especial, da sua incidência na região de Cacheu e, por outro lado, na constituição de materiais pedagógicos susceptíveis de serem utilizados na divulgação da temática, em especial junto das escolas. Este Centro deverá ainda proceder à edição de materiais diversos. A organização de conferências e seminários constitui, sem dúvida, outra importante valência do Centro de Estudos e Pesquisas, envolvendo participantes de diferentes origens.
O Centro de Formação é uma unidade concebida em estreita articulação com as necessidades da comunidade. Neste sentido, as matérias a leccionar poderão ser de amplo leque, cobrindo realidades diversas como a de guias turísticos, profissões artesanais, hotelaria e restauração, etc. Será também de prever a realização de residências artísticas, com vista à troca de experiências e produção de materiais de interesse artístico.
O Auditório do Memorial é uma estrutura multiusos que permitará acolher numerosas actividades, desde as danças e cantos tradicionais, passando pelo teatro, cinema e conferências. Por outro lado, a sua existência afigura-se extremamente relevante no acolhimento de actividades a desenvolver no âmbito dos Festivais programados. Neste sentido, prevê-se que o Auditório seja dotado com meios técnicos modernos (som, imagem, iluminação, etc.), que permitam diferentes utilizações.
A Loja do Memorial deve acolher objectos, reproduções e publicações relacionadas com a sua temática e, ao mesmo tempo, artesanato de origem local – constituindo-se como unidade de afirmação da própria marca “Memorial” e como fonte de rendimento própria.
O Memorial terá ainda uma zona de administração e de trabalho (designadamente, de conservação e restauro), bem como um espaço de guarda de materiais de uso comum e de exposições temporárias ou itinerantes.
Pretende ainda este Memorial, como referido, atrair jovens e investigadores, nacionais e estrangeiros, para o estudo dos temas relacionadas com a escravatura. Neste âmbito, assume especial relevância o estabelecimento gradual de relações com instituições congéneres, africanas, europeias e americanas e a criação de condições adequadas ao seu acolhimento.
A criação do Memorial da Escravatura em Cacheu, promovendo as culturas vivas, pretende potenciar a diversidade cultural étnica enquanto factor de paz, desenvolvimento e unidade nacional para uma convivência multicultural da Guiné-Bissau.